quarta-feira, 22 de outubro de 2008

talvez um dia o vento seja eu

Talvez um dia o vento pare de me trazer o frio…
Ou uma ou outra vez me traga aquela vertigem, aquele calafrio
Que vai trepando pela espinha, estremecendo o corpo.
Talvez um dia o vento traga alguém que não chegue morto.

E tu, que te vi morrer dentro de mim, comigo,
Voltes a nascer e, por pena, me leves contigo…
Talvez vivas naquelas brisas mais leves e quentes, que não vês,
Ou apenas, se houver apenas, te fiques por as quereres…

Talvez um dia o vento seja feito apenas de ti e de mim,
Sem vontade de ter inicio… ou pressa de chegar ao fim.
Levaremos tudo a nossa frente, deixando outro tudo para trás,
Sendo um só! E eu, sendo tu, de tudo serei capaz
.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

o ultimo voou da noite


Esta noite esta despida de amores e dores,
Talvez não seja eterna mas por enquanto não lhe vejo fim.
Deitado sobre terra, meu colo cheio de flores
Que não quero dar a ninguém, são todas para mim.

Meus pés pesam, arrastam-se no chão duro
Como se não quisessem transportar o meu corpo.
Lembro que há algo para esquecer, algo escuro
Que me trás noite a mente, ao coração, que me faz noutro!

Eu mexo as costas num único e singular movimento,
Os braços soltam-se de mim, as pernas caiem,
O tronco pega fogo e arde em sexo lento!
A pele estala, abre, dá espaço as asas que de mim saem!

Voou então noite fora sem ninguém a me pesar…
Livre voou como se fosse vento e pó…
Livre vou para onde não estou, sem amar,
Sem odiar, sem sentir, comigo mesmo, só!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

nunca amei

Toda a gente tem um grande amor

Mas ninguém fica com ele. E é dor.


E eu, que só nasci ainda, que nunca amei?

Vivi-lhe sempre tão longe, como acabarei?


Tantos vivem, tantos morrem, por um amor

Mais forte que qualquer outra vontade! Ou dor.


E eu, que nunca amei? Morrerei? Viverei?

Não quero saber, porque não o sei…

segunda-feira, 16 de junho de 2008

soldado amputado


sou despojos de uma guerra que nao travei!
soldado amputado,
encurralado,
um trono sem rei,
agua parada
depois da enchurrada.

sou teu e de ninguem.
meu sem me querer,
de todos os que me querem e teem,
do mero nascer ate ao envelhecer...

nao me quero
mas por mim mesmo desespero!

dou-me ate me diluir...
perder as formas,
a terra me fundir,
ser apenas sobras
duma vida que de mim deixei fugir.

sou soldado amputado,
encurralado...

domingo, 8 de junho de 2008

Noite...


Ela chegou por fim…calma e serena…
Já não a reconhecia… assim silenciosa.
Ela olhou-me lá do alto e foi descendo aos poucos…
Escura, velha, cansada, gasta… dolorosa.

Foi abraçando os telhados, as copas das árvores,
As ruas que se despiam das gentes…
Deitou-se sobre as casas ao comprido…
Foi entrando pela minha janela suavemente, silenciosamente.

Olhei-a simplesmente, admirando-a!
Ela vem, preparada para ir e retornar.
Leva sempre um pouco de mim! Deixo-a levar.
Rouba-me o tempo.

Eu apenas o deixo ir… não lho posso negar.
Ela tem um corpo diferente para todos os que ela abraça…
Mas seu braço é sempre o mesmo
E já lhe reconheço o toque… sua carcaça…

sábado, 7 de junho de 2008

não sei quem és e dóis-me


Nesta cama me empresto…como se da terra se tratasse!
Sinto que sempre lhe pertenci…
Magoo-me demasiadas vezes como se me curasse
Por cada lágrima que de mim para ti verti.

Sinto-me só, comigo mesmo… escondido dentro de mim
Protegido por tão vastos e altos muros
Construídos para que a vista não lhe alcança-se o fim
E onde todos os corpos são de pedra, duros…

Lá dentro me encontro... esperando nem sei bem o quê.
Parado, absorvido pelo olhar, a o olhar…
Talvez olhe, esperando que um alguém entre e me dê
Aquilo que eu nunca consegui tocar!

Entra por mim a dentro, destrói tudo! Leva tudo! Agarra-me!
Toca-me, beija-me o corpo e deixa-me… para depois
Saíres de mim… abandonar minha carcaça!... Abraça-me!
Não me deixes aqui emprestado, só tu me dóis…

Ajuda-me… sinto-me perdido de mim… não me encontro,
Não sei se me pertenço… tudo confuso e dói.
Não lembro quem fui, mas sinto-me tão frágil ao ponto
De quebrar se não me tocares. E não sei quem és e quem foi…

sábado, 24 de maio de 2008

alma vs corpo



Alma… minha alma é perturbada!
Alma dum corpo moribundo.
Alma estéril, cansada…
O corpo, esse pertence ao mundo.

Corpo… empobrecido pelo fácil toque!
Difícil seria lhe resistir.
Indecente a morte
Que não me deixa fugir.

Bom é o que de mau tenho
Falta-me o ar, cai o corpo.
Quebra o chão, a alma eu empenho
Querendo nesse meu corpo, um outro…

segunda-feira, 12 de maio de 2008

abraçado pela indiferença

Quero dormir sem o abraço apertado da tua indiferença
Talvez acorde com um outro peito, sem o lado esquerdo
Numa insónia duma noite lenta que aquele dia tem e a mim interessa
O que já não pertence ao sono do meu tenro medo.

Não irei sonhar uma outra e diferente imagem, eu sei.
Tenho-te, como uma noite escura diante dos meus olhos, fechados.
Abro a mão daquilo que nunca dei, nem mesmo usei!
Tranco-me por dentro, mas até meus ossos por ti estão marcados.

Eu quero esse amor que vem em segunda mão,
Gasto e estragado, até um pouco despedaçado!
Estou abraçado pela tua indiferença, duro como um chão
Que já ninguém pisa. Amor em segunda mão, usado.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

camisa-de-forças

Eu quero ir! Ir sem saber como voltar.
Ir, para onde não sei… mas não sinto que tenha de regressar, sei sim que aqui não posso ficar.
Quero ir apenas… partir, fugindo de mim…
Soltar-me ao sabor do que nada sabe. Saborear o que sabor não tem.
Vou deixar que os olhos fiquem para trás, para eu me poder ver a afastar daquilo a que pertenci,
Sem sequer ser digno de pertencer a nada.
Eu vivi… sinto-o. Vi o meu ar aqui.
Esse ar que inspirei e não sai! Mais eu o puxo para fora de mim e mais sinto a pele a me apertar.
Grito entao os gritos que me rasgam a garganta e ecoam dentro de mim,
mas que não me deixem ser ouvido: O silêncio a volta é forte demais para quebrar. O silencio foi feito para tudo calar.
Não quero ficar, vestido pela camisa-de-forças, com a corda a me prender na parede,
Parede que não pertence a ninguém e é visão larga para todos.
Já não tenho fome de viver… nem sede, secaram as minhas nascentes, não sinto sede, e falha-me a sede... essa sede...
É hora de ir, deixem-me os movimentos soltos…
Deixem-me solto!
Larguem-me e salvem-me, amem-me para depois me odiarem,
Fodam-me, prendam-me outra vez. Para uma vez mais, sem me olharem, me soltarem e amarem
Para num outro dia igual a este e todos os outros, me prenderem de novo.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

buraco na parede

Abro um buraco na parede
Chegou a altura de atravessar para o outro lado
Sinto algo a mudar
Olho para o todo
E sinto-me mais um buraco no escuro
Um herói sem rumo

Desenhei um coração no meu peito
Será verdadeiro ou serei menos humano?
As vezes apenas queria atravessar
Todas as coisas que faço
Sem senso
Todas as minhas necessidades de violência

Sinto falta de tudo
Eu quero voltar a errar
E ser lixo que jogas fora
Se continuar a magoar
Direi que estou bem
Fui feito para ser magoado
Feito para limpar de ti o que não vale a pena

Eu consigo caminhar na agua
Eu consigo caminhar no ar
Eu consigo caminhar em todos os sítios
Sem sequer la estar
Mas não consigo atravessar o buraco
E simplesmente partir
De toda a dor
Que a minha auto-violencia fez

segunda-feira, 3 de março de 2008

Ela chega

Ja ninguém ma tira! Vi-a chegar!
Partirei...
Aqui ninguem ficará
Para me chorar,
Eu sei...
E lá,
Para onde vou a caminhar,
A passo lento,
Ao contra-tempo,
Ninguém me vai esperar...