terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Maria Eduarda

A dança lacrimosa de um só homem na rua

Que se julga tanto e sempre tão menos que eu,

Que passa as noites de inverno imaginando nua

A mulher que lhe faz fazer o caminho inverso ao do céu!

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Maria Eduarda, de nome elitista, nunca irá viver.

Está finda, em branco, dentro da minha carne

Como um lume que se apaga sob uma nuvem a chover.

Ela ficará por detrás de mim, esperando quem a chame.

-

Ela nunca será filha, ela nunca será irmã,

Nem mesmo mãe ou virgem. E até puta!

Ela não será Ela… Não o pode ontem, nem hoje, nem amanhã!

Ela será uma derrota, nesta minha imutável luta...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Só por hoje

Amor, só hoje, só por hoje,

Por favor, não venhas dormir comigo…

Pesas tanto longe

E dois tanto, quando perto...

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Não é dor, é não saber sorrir,

A boca tem trejeitos que desconheço,

Que não sei embelezar, nem fingir…

Cansei-me dos meus beijos, confesso.

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Amor, por hoje por favor,

Não me abraces! Só por hoje…

Fazes-me arder e dói tanto sem ser dor

E é tanto só para por mim ser sentido…

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Não te quero e por ti desespero,

Não me sei,

Desconheço-me e só a mim quero.

Encontro-me em ti, e não gosto de mim.

sábado, 31 de outubro de 2009

barco de madeira

Não queres vir?

Não queres vir comigo para o barco

De madeira que eu construi,

Para me levar a lado algum?

E por onde eu outrora corri,

Campos de flores, estradas alagadas de ferro,

Tudo vai ser deixado…

Não há nada a que me possa prender.

Minha mãe chorará,

Mas um dia as ondas vão-ma trazer…

~

Não queres vir?

Para sitio nenhum?

Ficar boiando no mar alvo

Lembrando que não há chão?

Só eu e tu, sendo um,

Nus debaixo do sol,

Ate que a madeira ceda

E a vida abdique de nós,

E lentamente o mar nos beba,

E ali fiquemos para sempre,

Na garganta das ondas…

sábado, 24 de outubro de 2009

Tese do suicído em massa

E se um dia eu me deixasse ficar esquecido na cama
E se o meu corpo apenas saísse, procurando uma outra alma
Que não o faça ser punido pela confusão que sinto,
Por cada vez que acredito no Homem, quando a mim minto.

Se eu fosse deus tiraria desta terra ocupada à força todos os homens,
Faria o tempo voltar para trás e apagaria todos os ontens,
Deixaria tudo para os irracionais que vivem querendo apenas viver,
De seguida, se eu fosse deus, eu me castigaria, eu me faria morrer.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A boca da Cascavel

Quanto menos quero querer mais eu recebo,
Não vês que sou um dia de chuva, a boca de uma cascavel.
Sou aquele que ao nascer do dia deseja a noite
A noite triste e escura que é-me mãe, irmã e amante fiel!

E quando alguém me agarra na armadilha do Amor
Eu liberto-me, usando este coração que suja e eu limpo.
Sou a asa dum pássaro pronta para voar
Voar do inferno até atingir o céu mais alto, tocar o Olimpo

Mas na verdade, sou uma asa partida e inválida,
Que se debate por levantar voo, para alcançar um fôlego de ar,
E este meu coração é na verdade a boca de uma cascavel,
Que mata o seu amante quando apenas o quer beijar.

domingo, 19 de abril de 2009

A queda

Outra vez se fez uma palavra lá fora no frenesim
De maquinas, que cuspindo fumo me chamam!
O vento que me entra pela boca não sai de mim,
Fica-me pesando para debaixo dos ferros que me acamam.

Lá fora mora o perigo, e de perigo eu sinto falta!
Da varanda que trepei me atiro olhando bem no chão,
Querendo logo trepar uma seguinte, uma mais alta
E uma outra vez me auto-inflingir a queda, o empurrão.

Caiu de novo por entre a multidão que assiste
Tépida, amordaçada pelo encanto de tão trágica queda!
Eu ali espalhado, como pronto para ouvir a canção triste
De quem chora, de quem esqueceu que a morte e certa.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A chuva que choro

Dançando na chuva como se me lavasse de mim,
Como se ela fosse um choro
Pelo o tempo que fora de mim me demoro…

Dançando na rua, mostrando o meu corpo nu,
Minha alma nua,
Meu coração despido, e tu,

Ferida aberta que toldas os meus olhos abertos,
Não queres continuar a chorar,
Não queres a vida em volta olhar…

Eu agasalho-me, sem querer quereres e desejos,
Já despejada de mim toda a vontade,
Não querendo abraços, desprezando beijos.

Mantenho-me apenas de pé, um soldado,
Erecto pelo seu ego
E pela sua inconsciência abençoado.