quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Dente de leão

Pedaços… Pedaços voam de mim

Numa leve brisa de Primavera…

Adejam sem destino, sem fim,

Sem encontrar o chão da razão ou a quimera…

-

E num balouçar de loucos, o meu corpo cede

A uma qualquer agitação que passe…

E o que a mim antecede

É um corpo sem cor, sem flor, sem quem o abrace…

-
Tudo o que vem depois de mim é vida
Os meus pedaços levam-me, espalhado.
Quer ir, ir sem qualquer fim ou despedida!
Que o vento me agarre e leve abraçado!
-

Ai pudesse eu falar… sem que ninguém ouvisse

Tudo diria, por entre o vento

Enquanto nele cavalgaria pela planície
Dum qualquer meu e teu momento…

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cessar

E se… e se eu amanhã morresse?

E o meu corpo, cadáver, ficasse caído sobre as flores
Que brotam na montanha onde nasci e, cheias de cores,

Me envolvessem? E se eu dentro delas me perdesse?
.
E se eu fosse, numa pós-morte qualquer,
Acariciar as faces húmidas da minha mãe que berra?
Abraçasse com a maior afeição os irmãos que, em guerra,
Tentam enxergar como já nem a vida me quer?
.

E… e se eu fosse beijar a boca do meu amor?
Que chora pela sua perda, pela dor que agora carrega

E que eu lhe botei nos braços… esse amor que me nega
Qualquer afecto, qualquer deslumbre de vida ou cor…
.

E se… e se eu apenas e tão só morresse,

E nunca mais voltasse, sumido num escuro qualquer
Que asfixia eternamente, numa agonia que fere.
E se eu morresse vez atrás de vez por cada ser que
nascesse?


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Partilharmo-nos

Existia uma longa imprecisão da definição

Daquilo a que eu e tu pertencíamos.

Não éramos família, não éramos apaixonados, mas tínhamos

Em conjunto um único coração.

.

Esse coração bombeava sangue para as veias,

Sangue quente, quase a ferver, que percorria tudo.

No entanto, levantou-se um sentimento absurdo

Que nos levava a respirar com os mesmos pulmões, a meias.

.

Partilhamos assim um tronco, um corpo

Unidos um ao outro, respirando com boca na boca,

Saboreando as nossas línguas e a viver a pouca

Sorte que tínhamos em pertencer um ao outro.